Imposto Real
01 de julho de 20267 min de leitura

Por que produtos eletrônicos são tão caros no Brasil

Um celular que custa 800 dólares nos EUA vira R$ 8 mil aqui. A explicação não é só câmbio: é uma pilha de tributos que se somam do porto ao caixa.

ICMSIPIImportaçãoEletrônicos

Se você já pesquisou o preço de um iPhone, uma câmera Sony ou um console de videogame lá fora e comparou com o preço brasileiro, provavelmente teve a impressão de que a diferença é impossível de explicar só pelo dólar. E é mesmo. A maior parte do que empurra o preço para cima em produtos eletrônicos importados no Brasil é uma sequência de tributos federais, estaduais e contribuições que se aplicam em cascata sobre o mesmo produto.

A pilha começa no porto

Quando um smartphone chega ao Brasil por via oficial, a primeira parada é a Receita Federal. Ali incide o Imposto de Importação (II), que para eletrônicos costuma ficar entre 16% e 20% sobre o valor aduaneiro. Esse valor aduaneiro não é só o preço de fábrica: inclui frete internacional e seguro. Sobre essa base já inflada aplica-se o II.

Em seguida vem o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados). Para telefones celulares o IPI pode ser zero graças a incentivos da Zona Franca de Manaus, mas para muitas categorias — como câmeras profissionais, drones e itens de áudio — o IPI varia de 10% a 20%. E ele incide sobre o valor aduaneiro somado ao II. Ou seja, imposto sobre imposto.

Depois entram PIS e COFINS

Ainda no desembaraço aduaneiro, o importador recolhe PIS-Importação e COFINS-Importação. Somados, giram em torno de 11,75% e, novamente, incidem sobre uma base que já contém os impostos anteriores. Quando o produto sai do porto, o preço "desembaraçado" já está muito acima do valor original.

E o ICMS ainda nem apareceu

O ICMS é um imposto estadual e varia por unidade da federação. Para eletrônicos, alíquotas de 17% a 20% são comuns, e em alguns estados a alíquota interna sobe para 25%. Mas o cálculo do ICMS na importação usa o chamado "cálculo por dentro": o próprio ICMS entra na sua própria base. Na prática, uma alíquota nominal de 18% pesa como se fosse 22% no preço final.

A cadeia comercial cobra a sua parte

Depois de tudo isso, o produto passa pelo distribuidor e pelo varejo. Cada elo tem margem de lucro, custos operacionais e novos tributos sobre a operação (PIS/COFINS sobre a receita, mais ICMS na saída, ISS quando há serviço envolvido). Alguns desses tributos geram crédito para a etapa seguinte, mas na prática o consumidor final é quem paga a conta acumulada.

Um exemplo numérico

Pegue uma câmera profissional cujo custo de fábrica é US$ 2.000. Com câmbio a R$ 5,50, o valor de entrada seria R$ 11.000. Somando frete, seguro, II, IPI, PIS-Importação, COFINS-Importação, ICMS na entrada, margem do distribuidor, margem da loja e mais ICMS/PIS/COFINS sobre a venda final, é normal esse mesmo item chegar à prateleira por R$ 22.000 a R$ 26.000 — mais do que o dobro do câmbio direto.

O Imposto Real mostra essa decomposição em cada consulta: o preço na prateleira é apenas a ponta do iceberg. Abaixo dele há uma pilha de tributos que se somam, cada um cobrado sobre a base que já inclui os anteriores.

Por que muda tanto entre estados

Um mesmo produto pode custar R$ 300 a mais em Manaus do que em São Paulo, ou o inverso, dependendo de guerras fiscais, benefícios da Zona Franca, alíquotas internas e do regime de substituição tributária. Isso explica por que sites de comparação de preços mostram diferenças significativas de acordo com o CEP.

O que dá para fazer como consumidor

Do lado do consumidor, quase nada muda a estrutura de tributos — mas exigir a nota fiscal correta (com a discriminação do imposto pago, como manda a Lei 12.741/2012) e comparar preços entre estados ajuda a entender quanto do preço é produto e quanto é impostos. O objetivo do Imposto Real é justamente esse: tornar visível o que está embutido.