Combustível: quanto do preço do litro vai para o governo
Gasolina, etanol e diesel têm uma composição de preço peculiar: quase metade do que você paga no posto é tributo. Entenda ICMS, CIDE, PIS e COFINS no combustível.
Quando o preço da gasolina sobe ou desce, todo mundo olha para a Petrobras e para o dólar. Mas o preço final no posto tem outras camadas: a estatal define o preço na refinaria, distribuidoras e postos aplicam suas margens, e no meio disso tudo entram tributos que representam, historicamente, cerca de 45% do preço final do litro de gasolina comum.
As camadas do preço
Para simplificar, o preço final da gasolina no posto é composto por: preço de realização da Petrobras (custo do petróleo, refino, margem da produtora), preço do etanol anidro misturado (obrigatoriamente 27%), tributos federais (CIDE + PIS/COFINS-Combustíveis), tributo estadual (ICMS-Combustíveis), margem de distribuição e frete, margem do posto revendedor.
ICMS-Combustíveis: monofásico
Desde 2023, o ICMS sobre gasolina, etanol e diesel passou a ser cobrado no regime monofásico: um valor fixo em reais por litro, definido nacionalmente por convênio entre as secretarias estaduais de fazenda, cobrado uma única vez na cadeia. Antes disso, era percentual sobre o PMPF (preço médio ponderado ao consumidor) e variava enormemente entre estados.
Em 2026, o ICMS monofásico da gasolina C está na faixa de R$ 1,20 a R$ 1,30 por litro, e o do diesel S-10 em torno de R$ 1,05. Como o preço no posto oscila com o petróleo, o percentual efetivo desse tributo varia — pode representar 22% do preço num momento, 28% em outro.
CIDE-Combustíveis
A CIDE — Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico — é uma contribuição federal criada em 2001 com finalidade específica: financiar programas de infraestrutura de transporte, projetos ambientais e subsídios ao preço do combustível. Sobre a gasolina, a alíquota máxima é R$ 0,10 por litro; sobre o diesel, R$ 0,07. Em vários momentos essas alíquotas foram zeradas por decreto para segurar o preço no posto.
PIS/COFINS-Combustíveis
Também cobrados de forma monofásica (uma única vez na cadeia, na saída do produtor ou importador), somam em torno de R$ 0,79 por litro de gasolina e R$ 0,45 de diesel, valores que também são alterados por decreto conforme política de contenção de preços.
Um exemplo com números redondos
Gasolina comum a R$ 6,00 no posto, em SP, em 2026. Aproximadamente: R$ 2,20 é o preço da Petrobras + etanol anidro, R$ 1,25 é ICMS monofásico, R$ 0,79 é PIS/COFINS, R$ 0,10 é CIDE, R$ 0,90 é margem da distribuidora + frete, R$ 0,76 é margem do posto. Só de tributos federais e estaduais são cerca de R$ 2,14 — 35,7% do preço final.
Em momentos de preço do petróleo mais baixo, o mesmo tributo em reais representa proporcionalmente mais. Historicamente, entre 40% e 47% do preço da gasolina foi tributo em vários anos.
Combustível é diferente de outros produtos
Uma peculiaridade do combustível é o regime monofásico: PIS, COFINS, ICMS e CIDE são recolhidos numa única etapa, o que evita o efeito cascata típico do ICMS em outros bens. Mas também é diferente porque parte substancial do tributo é específico (valor fixo por litro), não percentual — protege a arrecadação em cenários de deflação e onera relativamente mais quando o petróleo cai.
O que o consumidor pode fazer
Do lado do consumidor, quase nada — o tributo está embutido antes do posto. O que dá para fazer é comparar entre postos (a diferença de margem entre bandeiras pode chegar a R$ 0,30) e trocar entre etanol e gasolina dependendo da relação de preços. Escolha política, no fundo, muda por eleição e por decreto federal.